A casa da encosta

4ADCBB02-B4AC-4DD3-92EF-12C738193EB4Este texto foi escrito nesta praia em Puerto Escondido, um lugar que me roubou o coração.

Estou sentada na praia à espera que o Sol se ponha. Num dos meus momentos preferidos, numa das minhas praias favoritas, à espera de mais um dos milhões de pores-do-Sol que já vi. Tenho-os todos guardados na minha coleção de pores-do-Sol numa das gavetinhas da memória.
Engraçado, quando era pequenina achava que dentro do nosso corpo haviam gavetas para guardarmos todas as memórias. Talvez ainda ache. Seria tudo muito mais organizado se todas as memórias estivessem guardadas com etiquetas, cada uma em sua gavetinha…
Faltam uns 20 minutos para o pôr-do-sol.
E eu estou ali sentada na areia com a minha música e o meu diário a aproveitar os últimos raios de luz. Fico hipnotizada tantas vezes, a ver aquela cor-amarelo-forte-do-Sol sobre o azul do mar. Fascina-me o jogo de cores que se forma no céu cada vez que o Sol nos deixa mais um dia. É hora de agradecer. Ao Sol, ao mar, à vida, por tantas coisas bonitas que nos oferece diariamente. E são grátis.
Na encosta da praia há uma casa. Reparo nela todos os dias.
Sempre que chego à praia, à minha favorita, e olho para o lado esquerdo lá está aquela encosta verdejante a descer para o mar com aquela casa de madeira tão bem cuidada. Sou bastante curiosa, é verdade. E aquela casa transmite-me uma boa energia.
– Foi feita com amor, tenho a certeza.
Está a meio da colina e facilmente se chega à praia. Tem um caminho de pedras que acaba onde a areia branca começa e nos leva até ao mar.
Faltam uns 15 minutos para o Sol se por. Talvez menos. Nunca fui muito boa em cálculos mas já quase adivinho as horas pela posição do Sol no céu.
[Habilidades que se ganham a viajar.]
Volto a olhar aquela casa que me inquieta. Vejo um homem no início da colina. Tem uma prancha de surf na mão. Deve ter os seus 35. Talvez 36. Tem bom ar. Ao seu lado estão duas crianças, dois rapazes. São bastantes parecidos. Os três. Com 4 e 5 anos talvez. Têm também pranchas na mão e o mesmo corte de cabelo que “o pai”, suponho eu. São giros os miúdos. Usam calções de banho iguais e um sorriso tão grande que não lhe cabe na cara.  Nem os conheço mas já estou apaixonada.
Pelas minhas contas, faltam uns 10 minutos para o Sol desaparecer e transformar o céu numa verdadeira obra de arte.
Os três correm em direção ao mar com as suas pranchas. Os mais pequenos parecem não ter medo algum das ondas (não muito grandes) que vêm, uma após outra, contra eles. Sob o olhar atento do pai e com a sua ajuda, um de cada vez, vão surfando as ondas… Que máximo! Aquele final de tarde deve ser rotina na vida deles.
Estou deliciada a olhar aqueles três na água a rirem às gargalhadas. Parecem felizes.
O Sol está quase a tocar na água. Devem faltar uns 5 minutos para o final de mais um dia.
Naquela meia luz, única, do entardecer, ainda consigo vislumbrar uma mulher sentada na escada da casa da encosta. Aquela casa é realmente bonita, toda de madeira bem cuidada, com janelas com portadas enormes. As cortinas brancas esvoaçam pela varanda que rodeia a casa toda. A casa tem dois andares mas parecem três pois está construído em cima de grandes estacas de madeira. Na varanda virada para o mar podem-se ver três redes brancas de baloiçar feitas em crochê. Tem varias pranchas encostadas às portadas e dois cães sentados ao lado daquela mulher. Ela tem um ar sereno. E feliz. Deve ter uns 33, talvez 34. Não sei bem. Tem um livro na mão e uma chávena na outra. Sorri calmamente para o mar. Ou talvez seja só a minha mente a viajar.
Como não sorrir? Tem aquela casa tão linda na encosta da praia mais bonita. E aquelas crianças tão espertas, com o seu cabelo comprido cortado igual ao pai. E tem o amor da sua vida ali na água a rir e a sorrir com o sorriso mais bonito que já vi, admito.
O Sol já se pôs. O céu é agora uma aguarela cheia de nuvens cor-de-rosa feitas de algodão-doce.
Abro os olhos e percebo que me deixei meditar e a minha mente me levou numa grande viagem.
Eu não sei o nome daqueles miúdos tão queridos e muito menos do homem de prancha na mão, mas ali, na casa da encosta, aquela mulher sentada nas escadas, era eu à espera que o Sol se ponha, num dos meus momentos preferidos, numa das minhas praias favoritas, à espera de mais um dos milhões de pores-do-Sol que já vi.

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